24/05/2009

A "Rosaira" da minha vida!

Grazina no jogo em sua homenagem com o Belenenses.
A menina loira é a minha mãe.
A minha mãe e o meu avô ao centro

Com o meu pai e o meu avô Grazina, em olhão 1977
*

Todos na vida temos alguém na família que admiramos mais. E eu cresci a admirar o meu avô. A ouvir as histórias que se contam dele. Era um valente jogador a "Rosaira", tão valente que ainda hoje, e passados mais de 25 anos sobre a sua morte, se fala dele.
"Rosaira" para os colegas de equipa ou simplesmente o velho Grazina, o inesquecível médio centro do Olhanense. Pelo menos assim o dizem. Jogou até não poder mais. (pelo menos é o que dizem as gentes) Os seus 44 anos forçaram-no a pendurar as chuteiras, num jogo que ficou para a história como relata um autor anónimo:
"Para colaborar na festa de homenagem a Grazina, o extraordinário “gigante” do Olhanense, a equipa do Belenenses deslocou-se à pitoresca vila de Olhão, com todos os seus elementos titulares.Esse jogo jamais será esquecido por aqueles que tiveram a felicidade de a ele assistir. Primeiro por se tratar da homenagem a um dos mais correctos e populares jogadores portugueses, depois pela exibição que Matateu fez."
O meu avô foi um guerreiro incansável, um futebolista à moda antiga que jogava por amor à camisola. Um amor que o levou à glória, ao reconhecimento e ao sucesso. Um amor que a sua gente não esquece ainda hoje. Recordo aqui uma passagem de " A Vila de Olhão da minha Recordação", de Leonel Maria Batista:
"O excelente e denodado Grazina- um grande e incansável guerreiro que jamais se negava à luta ."

Contam-se muitas histórias do meu avô. Ele tinha um feitio muito próprio. E um físico invejável. Era muito resistente. A minha mãe diz que ele deixou de jogar futebol aos 44 anos (quase 45), não porque já não pudesse dar mais, muito pelo contrário. Ao que parece nos últimos anos, o Olhanense era uma equipa muito jovem, tirando o Grazina e o Abrão (padrinho da minha mãe e antigo guarda redes da equipa) e o meu avô costumava brincar que era a mãe (Abrão), o pai (Grazina) e os 9 filhos. E isso mexia com ele por dentro. E poderia levar a alguma troça. Mexia tanto que resolveu pendurar as chuteiras para tristeza das gentes de Olhão.
Na sua ultima entrevista ao DN, em 1980, meses antes de falecer, foi igual a si mesmo, um guerreiro:
"Se fosse jogador hoje, jogava até aos 60 anos", dizia em tom de sátira e critica ao caminho que o futebol português estava a tomar: salários cada vez mais exorbitantes, futebolistas caprichosos que apenas jogam futebol e nem isso Às vezes conseguem fazer de jeito. Ele que sempre trabalhou nas conservas, chegou a dormir em contentores de pesca, jogou e nunca recebeu fortunas. Nasceu pobre, morreu pobre e nunca quis sair da cidade de Olhão que tanto amava. E onde era tão amado. A sua maior riqueza era o amor da sua gente. Todo o carinho e reconhecimento que sempre demonstraram, quer em vida, quer na hora do ultimo adeus. Poderia ter tido um funeral de pompa e circunstância e ter sido sepultado junto das grandes figuras de Olhão, mas essas "mordomices" não eram para ele e a minha mãe preferiu sepultar o pai na campa de família que pertencia às suas irmãs. O importante era ficar em Olhão. E isso, nem se pôs outra hipótese. Quanto ao jogar até aos 60 anos e tendo em conta todas as diferenças entre o futebol do tempo do Grazina e o dos anos 80 (altura em que faleceu), tenho a certeza de que se fosse vivo hoje essa fasquia dos 60 já teria subido para 65 ou mais. Até estou a imaginar o que ele diria: " Moss, isto hoje é só mariquices e jogar à bola nada" ou algo parecido.
Voltei a Olhão em 2005, quase 20 anos depois de ter lá estado a última vez. Queria recordar o meu avô, caminhar na sua rua (Travessa dos Arménios), conversar com as suas gentes, ver de novo os patos do jardim junto à ria. (os patos são a minha maior recordação de Olhão).
Aconteceu uma coisa curiosa, quando me dirigi ao largo do jardim onde estão os famosos patos e onde se reúnem as "gentes mais velhas" de Olhão. Falava-se de futebol, dos feitos do Grazina, "um jogador natural de S. Brás de Alportel que enchia o campo da equipa de 1923 que foi campeã nacional, onde jogavam o Delfim, o Tamanqueiro e o Cassiano."
Timidamente perguntei se sabiam onde era a Travessa dos Arménios. Ninguém soube-me responder. Mas um deles perguntou-me porque queria saber. Talvez o motivo lhe permitisse descobrir a resposta.

- Eu queria saber onde morava o Grazina?
- O Grazina, mossa? O velho Grazina? - perguntou, arregalando os olhos
Respondi afirmativamente, mas ele não aguentou a curiosidade:
- Moss, vai-me desculpar a pergunta, mas porque é quer saber?
- Porque era o meu avô e não venho cá há muitos anos...
Pararam todos o que estavam a fazer. E começaram a olhar-me de alto a baixo. Um dos "velhos" veio de trás, fitou-me, tirou os óculos escuros e disse:
- Então e és filha de quem? Do Januário?
- Não. Da sua irmã, a Laurita. - respondi
- A Laurita era uma menina muito loira e muito bonita, lembro-me bem dela e o teu avô, é uma lenda aqui na terra. Que belo jogador. A casa onde vivia é já aqui atrás, entras ali e é na segunda à direita.
E era mesmo. Assim que entrei na rua reconheci-a imediatamente. Tão estreita que se afastasse os braços quase que tocava nas duas paredes. Percorri-a, a relembrar os tempos de criança, quando começava a olhar as varandas à procura da que tinha as gaiolas com pintassilgos, porque sabia que essa era a da casa do meu avô. Ele adorava pintassilgos (ainda hoje temos sempre um em casa em sua memória). Hoje percebo porque gostava deles, revia-se na sua rebeldia.
Mas as vitoriosas conquista do Grazina e do Olhanense eram apenas histórias que sempre ouvi contar. Quando nasci, em 1976, o Olhanense tinha descido à segunda divisão no ano anterior e nunca mais conseguiu voltar à elite do futebol. Toda a vida sonhei com o dia que o Olhanense subiria à primeira divisão de novo e esse dia aconteceu. Finalmente! Foi no dia 17 de Maio de 2009. 34 anos depois, o Olhanense consegue a proeza e realiza o meu sonho. O sonho de todos os olhanenses.
Nesse mesmo dia, vi na televisão, o nome do Grazina ser pronunciado e relembrado pelas gentes de Olhão. Só as pessoas com mais de 65 anos (idade da minha mãe e ela própria só se lembra dos últimos anos) viram o Grazina jogar. Mas o que é certo é que na altura da vitória, algumas pessoas se lembraram dele e isso deixou-me muito comovida, orgulhosa, enfim, aquela terrível mania que as mulheres têm de ter sempre a lágrima ao canto do olho.
Hoje gostaria de estar em Olhão para a festa. Mas não foi possível. Mas estarei sempre com eles, como estive sempre, na Antena 1 aos domingos à tarde a seguir o Olhanense até à subida. Foram 3 décadas à espera deste dia. E quando se espera e se quer muito uma coisa, às vezes ela acontece.
O meu avô esteja ele onde estiver, eu tenho a certeza de que estará feliz. "Estamos na primeira avô, estamos na primeira avô..."
Moss... Já me chorem os olhes camande....

4 comentários:

Mano João disse...

Saúdo, com o maior respeito, a memória desse grande jogador olhanense, o Grazina!
Só o conheci nos finais dos anos 70, mas os seus feitos, a sua entrega incondicional ao olhanense, eram conversa lá de casa sempre que se falava de futebol, de bom futebol.

É uma grande honra para mim estar neste seu blog!

cups
Mano João

Astromar disse...

O teu avô está de certeza orgulhoso.. do seu Olhanense e de ti...!

Beijinhos
Hugo

R. Grazina disse...

olá! criei um grupo para Grazinas no facebook!

http://www.facebook.com/group.php?gid=194083301762

Já somos 15 Grazinas do norte ao sul!

Abraço

Sal G. disse...

Adorei a hitória de vida de um parente meu Grazina, uma familia com garra de lutadores! Gostava que te associasses a nós no Facebook, o meu nome é Sal Grazina e tenho um pequeno grupo intitulado os Grazinas, no qual já publiquei a foto do teu avô com orgulho e parte do Texto por ti escrito, espero que não leves a mal. Ou então vai a Grazinas no Facebook do qual me encontras lá tb! bjs nossos Grazianos!